Meu Corpo

sexta-feira, 2 de março de 2012


Lá estávamos nós. Corpos suados, lânguidos e ainda alterados pela sofreguidão que abatemos no colchão por nossos desejos mais íntimos. Você de olhos fechados, terminando o próprio prazer, enquanto eu a via do meu lado, tão distante. Éramos uma cama, mas nunca uma pessoa. O sexo apertava tanto a sua imaginação que você nunca me olhou ternamente, só havia desejo quando vinha a minha procura. E eu soubera disso todo o tempo. E sem renúncia, me deixei levar a esse estado pecaminoso e imundo. Só pra ter um pouco, só pra fantasiar o mínimo de amor possível. 
O único momento que dividíamos era quando você, louca, me puxava pelos cabelos e dizia me querer, ah! Aquelas palavras a princípio me faziam voar, vê-las sair dessa boca vermelha me consumia todo. Mas logo a verdade surgia, e lá estava você querendo me arrancar as calças e provar aquilo que realmente lhe interessava. Era sempre sexo, sexo, sexo. E quando te bastava, ficava uma, duas, três semanas sem me ligar, como se eu fosse um qualquer. Como se não houvesse respeito, integridade. Como se eu não fosse homem suficiente para partilhar da sua vida, de uma vida nossa. 
Nunca, nunca, houve NÓS. Apenas você, sua fome e a minha entrega! 
E há quem diga que os homens não buscam amor. Que os homens vivem de transas casuais, de mulheres noturnas, de saldos sem débitos... Falam tanto! E cadê vocês mulheres amorosas, delicadas. Essa independência moderna veio para sujar o nome das nossas antigas mulheres, que talvez estejam apenas nos proporcionando um pouco de sua masculinidade, um pouco daquilo que aprenderam conosco. Os homens!
E você, sempre tão bela, tão exata, prática e impessoal, veio para arrebentar tudo em mim. Para provar a minha debilidade, para deixar um rastro sanguinário dos seus próprios medos. Por que isso que você chama de imparcial, eu chamo de covardia. Seu medo de se apaixonar é tão grande que você segue ferindo aqueles que te amam, que você continua a despedaçar corações sinceros, mas tudo bem. Sofrimento também ensina, e quem hoje bate, amanhã também pode apanhar. 
E olha, não volta com essa carinha de  mulher carente, que precisa de um carinho de macho alfa, que eu não estou tão arredio assim, ok? Volta lá pro seu canil e deixa eu com as minhas feridas. Não é que não seja boa essa relação extra que nós tivemos, mas, eu estou precisando daquela cara-metade sabe? Daquela pessoa mágica, que vai me fazer sorrir abobalhado, e dizer que me ama, quem sabe. Eu estou precisando me cultivar inteiro pra essa pessoa, e toda vez que fico ao seu lado, eu volto mais regaçado, mais destruído. Você não percebe, mas esse seu egoísmo destrói fantasias, e eu não posso continuar brinquedo das suas luxúrias. 
E foi bom, foi muito bom mesmo. Com você eu conheci aqueles pontos fatais, que as mulheres vivem tentando ensinar aos seus homens, mas você só me ensinou isso. Eu preciso de mais, preciso de um ensinamento que me levante da cama, e não que me jogue nela. Eu preciso de alguém pra segurar a minha mão e não pra me arranhar, lamber, chutar. E não pense que eu vou sem lembranças suas, até sentirei saudade; mulheres como você, homem nenhum esquece. Vocês marcam a nossa vida. Mas acredite, você conseguirá outro para esfregar seu corpo esguio e curvilíneo, mas eu não ouso dizer que encontrará alguém disposto a continuar do seu lado!


[Conto ]

Milady de Marselha

quinta-feira, 1 de março de 2012
Milady, 

Se eu lhe contar tudo, tudo aquilo do qual estou insatisfeito, me verás como o fraco que sou, e não perdoarás as minhas faltas. Serei mesclado aos demais que vieram bagunçar a sua vida, e não haverá sentindo vir de tão longe, apenas para te magoar. E se houvesse um pensamento insano, um do qual me valesse fazer juras, lhe diria que a cada instante que vivemos nos tornamos melhores, mas... Que certeza teremos se não somos um do outro? E se, não existe nada que nos aprisione aqui?
Libélulas, porque borboletas não vão nascer dos nossos escombros. Se tivéssemos a paciência que um dia tiveram os nossos antecedentes talvez crescessem flores a cerca de nós; no entanto, a pressa é companhia constante e não nos resta muito há não ser caminhar, instintivamente. Eis que sua asa não pende pra minha, estamos absortos demais para sermos de alguém, ou do outro.
Lá se vão as expectativas que criamos quando ausentes estávamos da verdade, era um sonho lindo te imaginar minha e você, espero, que também gostasse de mim, antes de conhecer-me. Mas a irrealidade dura segundos, o encantamento se rompeu quando nos deparamos aos nossos seres falhos e inescrupulosos. Enxergamos de uma forma trivial, o quanto as pessoas são indesejáveis e até cruéis. E não falto com a minha conduta, só falto com você. 
Espero que nunca tenha derramado lágrima alguma pela minha inexatidão. Eu também tinha esperanças ao seu respeito, mas nunca me iludi em lhe achar a melhor de todas. Conheci tantas, milady, que hoje as mulheres são-me apenas formidáveis. Aceitáveis, em casos particulares. Contudo, não casamos. Em aspecto algum nos preenchemos, e então por isso me despido tão rudemente, para lhe deixar com suas aventuranças, na ânsia de quem sabe encontrá-la feliz outro dia; e espero eu que em meio a tanto, deseje o mesmo a minha pessoa.


Lorde, de Devon (Inglaterra).

É sempre você, com você, por você...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
[Existo, mas logo esqueço que existo ao ver você passar.]


Ela não precisa de maquiagem, e a pele dela não é tão macia quanto a minha. Ela conserva sinais de amabilidade e se reserva pra mostrar-se mais interessante outra hora. E aqueles longos cabelos, nem se fala. Uma falsa modéstia que me incomoda. Ela tem olhos grandes, será que você não vê? E ela fala demais. Ela tem pernas tortas e anda como se não pudesse fechá-las jamais. Ela tem um passado hediondo e cheio de más companhias, mas você a perdoa. Você a abraçou quantas vezes hoje? É tão enjoativo vê-los juntos, e lamento por você. Estaria em melhor companhia se escolhesse pela ordem de chegada. Mas não! Eu não sei o que se passa por essa sua cabecinha indecisa e maculada, mas, olhe aqui, eu estou falando com você; não há vantagem alguma em se estar sozinho, e a minha fatalidade só aumentaria o gozo dessa vida pacata e mundana. 
Sejamos franco, eu te provoco de diversas maneiras. Eu sei que sim, e não adianta me olhar com essa cara de superioridade, estamos nos mesmo nível de insegurança. Mas eu disse: "eu quero". E você voltou a se virar de costas. 
Ah! O beijo..., Não o nosso. Esse tem lugar reservado em ambas as partes, mas aquele outro lembra? Claro que lembra. Foi beijo, entende? Beijo que a gente dá quando está sozinho, quando aparece um cara e te olha com pelo menos um pingo de paixão. E ele estava ali, e eu também. E você estava ao redor, mas... Estava longe como sempre. 
Aconteceu! 
Droga, não aconteceu. Eu quis, e quis mesmo. Eu quero uma vadiagem as vezes, e não me olha com essa cara de nojo, que o ciúme foi bem maior. Contudo, adivinha? Foi o meu cotovelo que doeu hoje. E se eu não me arrebentei toda foi porque o meu amor próprio voltou pra casa. E estou concertada, inteirinha pra mim. Já que pra você nem os pedaços serve. 
Olha, não estou pedindo nada, e nem venho declarar qualquer coisa. É que eu preciso falar, você entende? As vezes eu sei que você pensa, e por isso eu faço coisas que eu sei, que um dia você fará por mim. No entanto, me basta saber se serão as coisas boas, ou as ruins!


Tudo bem, eu já estava cansada mesmo.