Lá estávamos nós. Corpos suados, lânguidos e ainda alterados pela sofreguidão que abatemos no colchão por nossos desejos mais íntimos. Você de olhos fechados, terminando o próprio prazer, enquanto eu a via do meu lado, tão distante. Éramos uma cama, mas nunca uma pessoa. O sexo apertava tanto a sua imaginação que você nunca me olhou ternamente, só havia desejo quando vinha a minha procura. E eu soubera disso todo o tempo. E sem renúncia, me deixei levar a esse estado pecaminoso e imundo. Só pra ter um pouco, só pra fantasiar o mínimo de amor possível.
O único momento que dividíamos era quando você, louca, me puxava pelos cabelos e dizia me querer, ah! Aquelas palavras a princípio me faziam voar, vê-las sair dessa boca vermelha me consumia todo. Mas logo a verdade surgia, e lá estava você querendo me arrancar as calças e provar aquilo que realmente lhe interessava. Era sempre sexo, sexo, sexo. E quando te bastava, ficava uma, duas, três semanas sem me ligar, como se eu fosse um qualquer. Como se não houvesse respeito, integridade. Como se eu não fosse homem suficiente para partilhar da sua vida, de uma vida nossa.
Nunca, nunca, houve NÓS. Apenas você, sua fome e a minha entrega!
E há quem diga que os homens não buscam amor. Que os homens vivem de transas casuais, de mulheres noturnas, de saldos sem débitos... Falam tanto! E cadê vocês mulheres amorosas, delicadas. Essa independência moderna veio para sujar o nome das nossas antigas mulheres, que talvez estejam apenas nos proporcionando um pouco de sua masculinidade, um pouco daquilo que aprenderam conosco. Os homens!
E você, sempre tão bela, tão exata, prática e impessoal, veio para arrebentar tudo em mim. Para provar a minha debilidade, para deixar um rastro sanguinário dos seus próprios medos. Por que isso que você chama de imparcial, eu chamo de covardia. Seu medo de se apaixonar é tão grande que você segue ferindo aqueles que te amam, que você continua a despedaçar corações sinceros, mas tudo bem. Sofrimento também ensina, e quem hoje bate, amanhã também pode apanhar.
E olha, não volta com essa carinha de mulher carente, que precisa de um carinho de macho alfa, que eu não estou tão arredio assim, ok? Volta lá pro seu canil e deixa eu com as minhas feridas. Não é que não seja boa essa relação extra que nós tivemos, mas, eu estou precisando daquela cara-metade sabe? Daquela pessoa mágica, que vai me fazer sorrir abobalhado, e dizer que me ama, quem sabe. Eu estou precisando me cultivar inteiro pra essa pessoa, e toda vez que fico ao seu lado, eu volto mais regaçado, mais destruído. Você não percebe, mas esse seu egoísmo destrói fantasias, e eu não posso continuar brinquedo das suas luxúrias.
E foi bom, foi muito bom mesmo. Com você eu conheci aqueles pontos fatais, que as mulheres vivem tentando ensinar aos seus homens, mas você só me ensinou isso. Eu preciso de mais, preciso de um ensinamento que me levante da cama, e não que me jogue nela. Eu preciso de alguém pra segurar a minha mão e não pra me arranhar, lamber, chutar. E não pense que eu vou sem lembranças suas, até sentirei saudade; mulheres como você, homem nenhum esquece. Vocês marcam a nossa vida. Mas acredite, você conseguirá outro para esfregar seu corpo esguio e curvilíneo, mas eu não ouso dizer que encontrará alguém disposto a continuar do seu lado!
[Conto ]

